Ciganos do Futebol,
Retirado de
http://www.estadao.com.br/especial/jogadores.htm
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Por Tote Nunes.
Todos os dias, três jogadores brasileiros deixam o País em busca de fama e dinheiro no Exterior. Na sala de desembarque do mesmo aeroporto, outros dois estão de volta e, na maioria dos casos, trazendo na bagagem nada além de histórias e desesperança. Entre os que partem, estão craques consagrados ou jovens promessas do futebol cinco vezes campeão do mundo. Entre os que chegam, atletas que grande parte dos torcedores jamais ouviu falar.
Confira, em texto e áudio, a história pouco glamorosa de três desses jovens ciganos do futebol: do zagueiro Regis, do Cruzeiro, que encarou a aventura de jogar na Rússia; de Fábio Bombardi, que definiu sua passagem de pouco mais de seis meses pelo futebol da China e do Casaquistão como "do hotel 5 estrelas a uma pensão barata"; e do zagueiro do Ituano, Andre Leone, cuja passagem pelo futebol italiano terminou na polícia.
A maioria dos que partem sequer alimenta o sonho de ganhar muito dinheiro. Os jogadores querem mesmo é sobreviver
Um levantamento realizado pela CBF a pedido do Portal Estadao.com.br
confirma que é crescente o número de jogadores que deixam o País todos os anos. E revela também que um número cada vez maior de atletas brasileiros está fazendo o caminho da volta. Até o final de setembro - quando termina o prazo de inscrições no futebol europeu - os registros da CBF contabilizavam a saída de 788 jogadores brasileiros para clubes de futebol, nos cinco continentes. Uma média de 88 por mês.
No mesmo período, 476 atletas retornaram ao País, o último deles, Leonel Francisco Freitas, o Chiquinho, que no dia 24 de setembro, deixou o FC Pforzheim, da Alemanha, e retornou ao Guarani, de Venâncio Aires, no Rio Grande do Sul, de onde havia saído alguns meses antes.
Alguns voltam por opção profissional - casos, por exemplo, do meia Ricardinho, que trocou o Middlesbourough, da Inglaterra, pelo Santos; ou ainda o atacante Luizão, que deixou o Hertha Berlim para jogar no Botafogo, do Rio. Mas essa, infelizmente, não é a realidade para a esmagadora maioria de repatriados.
O ex-jogador Jorginho, campeão mundial em 1994 - que neste ano iniciou (e interrompeu) uma carreira como empresário de jogadores - tenta explicar as razões pelas quais tanta gente quer deixar o Brasil, sem a certeza de que vai ganhar um bom dinheiro e conquistar a chamada “independência econômica”.
"Falta de perspectiva profissional, uma enorme expectativa criada pela família que sonha em ver resolvidos os seus problemas financeiros e a ganância dos empresários", diz.
Jorginho continua: junte-se a isso a falta de seriedade da maioria dos clubes brasileiros, que frequentemente descumprem contratos de trabalho.
O desemprego é outro fator. Sem opções aqui, jogadores passaram a apostar até mesmo em destinos pouco comuns. Em São Paulo, o maior mercado do País, com 160 clubes em todas as divisões profissionais, existem 600 jogadores desempregados, o que representa 15% dos 4 mil atletas registrados, segundo o sindicato da categoria.
Nos períodos de recesso, intervalo de competições, o índice é ainda maior. "É grande o número de jogadores que passam pelo menos três meses desempregados no ano", afirma Luiz Eduardo Pinella, diretor do Sindicato dos Atletas Profissionais do Estado de São Paulo. Segundo ele, muita gente fica sem ocupação assim que termina o campeonato estadual, quando o primeiro semestre ainda está pela metade.
Sem alternativas no mercado interno e estimulados pela atuação de empresários, a saída passa a ser o aeroporto, mesmo que o destino seja pouco glamoroso. Só este ano, 25 jogadores brasileiros estiveram no futebol paraguaio, 15 passaram pela Arábia Saudita, 14 jogaram na Coréia e nove saíram da China. Sete estiveram na Indonésia e no Kuwait, seis na Índia e outros seis em Israel.
A maioria sequer alimenta o sonho de ganhar muito dinheiro. Eles querem mesmo é sobreviver. Por conta disso, é comum aceitarem propostas que variam entre 2 e 5 mil dólares por mês de salários.
(por Tote Nunes)
“Corpo mole", uma expressão muito conhecida pelo torcedor brasileiro, não pode ser aplicada aos chamados ciganos do futebol.
Pelo contrário, persistência é a palavra-chave para quem corre o mundo em busca de oportunidades. Muitos dos jogadores que voltaram ao Brasil este ano, depois de passagens frustradas no Exterior, já estão novamente na estrada.
Renato Dracena, irmão do zagueiro Edu Dracena (Cruzeiro e com passagens pela Seleção Brasileira), é um bom exemplo. Começou o ano no Teuta, um time de futebol da 1ª Divisão da Albânia. Em março deixou o clube e voltou ao Brasil. No início de julho se apresentou a um time da 3ª divisão italiana, onde está até hoje.
"Eu nem sei o nome do time, mas parece que ele está bem", contou João Luís de Souza, o "seu Adão", pai de Renato.
A aventura de Renato Dracena começou em outubro de 2002, quando foi visitar o irmão Edu Dracena, na época no Olympiakos, da Grécia. Literalmente, pretendia fazer um "reconhecimento do gramado". Em janeiro do ano passado, decidiu ir para a Albânia, com salário de US$ 3 mil por mês e promessas de bons prêmios.
"O "bicho" (prêmios por vitórias) era alto, mas se o time perdia, eles descontavam do salário", explica seu Adão. "No final das contas, a gente ficava devendo".
Exceto os jogadores "de ponta", ninguém vai para o Exterior para resolver a vida, acredita Carlos Garrit, coordenador-técnico do CFZ, o time do Zico. "Se o salário aqui é de R$ 2 mil, ele aceita ganhar 2 mil dólares lá fora. Quando não dá certo em um lugar, ele tenta em outro. É assim que funciona".
Garrit sabe o que diz. Pelo menos três ciganos que rodaram o mundo estão atualmente no CFZ, do Rio. O primeiro a retornar foi Arthur Teixeira Viegas, o Arthur, liberado pelo Universidad Católica, do Equador, e desde julho atleta do CFZ. Antes de tentar a sorte no futebol equatoriano, Arthur perambulou por vários clubes de segunda e terceira divisões do futebol alemão e inglês.
O zagueiro Leonardo, também do CFZ, tem duas tentativas radicais na bagagem: primeiro na Indonésia e depois na Índia, de onde retornou no mês passado. Ademar, seu colega de zaga no mesmo CFZ, também traz no currículo uma temporada no futebol húngaro, depois de uma breve passagem pelo futebol japonês.
(por Tote Nunes)
Filme de brasileiro sobre o triste destino de argentinos e uruguaios nos gramados da Itália
Por Rui Martins, especial para o Portal Estadao.com.br
Em agosto de 2001, um grupo de 23 jogadores de futebol - 13 argentinos e 10 uruguaios - desembarcaram em Fiorenzuola, uma pequena, mas rica cidade de 15 mil habitantes, entre Piacenza e Parma, seduzidos pela promessa de um futuro de glória. À frente do grupo, Mario Kempes, artilheiro e campeão do mundo em 1978, contratado para dirigir o Unione Sportiva Fiorenzuola, que seria formado pelos 23 jovens atletas selecionados a partir de uma característica comum: todos, sem exceção, com origem italiana.
A idéia partiu do empresário milanês Alessandro Aleotti. O sonho era deixar para trás a terceira divisão e, em pouco tempo, chegar ao milionário campeonato italiano da primeira divisão.
O brasileiro César Meneghetti e sua companheira Elisabetta Paindemiglio, jovens cineastas, decidiram documentar o que seria a ascensão dos jogadores. Convivendo com o grupo de atletas, obtiveram uma espécie de reality show com os depoimentos entusiasmados e esperança dos jogadores e seu técnico, naqueles primeiros dias de presença na Itália.
Cerca de 40 dias depois, sonhos e ilusões cederam lugar à angústia, dúvidas e pesadelos. A compra do Fiorenzuola não se concretizou, o empresário desapareceu e os jogadores ficaram sem dinheiro até mesmo para retornar aos seus países.
Foi assim que surgiu "Sonho de Bola", um documentário sobre os bastidores do futebol, a mídia e o sonho do ganhar dinheiro fácil nos gramados do mundo. O filme, lançado no mês passado, foi bem recebido pela crítica de Roma, Torino e Milão e permanece em cartaz em pequenas cidades italianas. Depois, segue para França e Inglaterra, antes de chegar à Argentina, Uruguai e ao Brasil.
"Sempre quis fazer um documentário sobre o futebol e quando li a notícia sobre a compra do Fiorenzuola, formado exclusivamente por jogadores argentinos e uruguaios, todos com passaporte italiano, não tive dúvidas de que havia chegado a hora", conta Meneghetti. "A idéia me pareceu fascinante para um filme, até porque, na época, parecia o registro de um sucesso anunciado".
A aventura durou exatos 40 dias. "Ficamos ao lado deles o tempo todo, filmando o dia a dia, a euforia inicial, a desilusão e o desespero que tomou conta do grupo quando o projeto nafragou".
A maioria dos jogadores voltou para seus países de origem. Outros ficaram na Itália com suas famílias submendo-se a trabalhos humildes sem relação com o futebol, como garçons e faxineiros. Só alguns mais afortunados conseguiram jogar em clubes da quarta divisão, não profissionais, revela Meneghetti,.
Um dos jogadores do Fiorenzuola, conta Meneghetti, era neto de Juan Alberto Sciaffino, jogador da seleção uruguaia de 1950 e da italiana de 1954. O filme mostra subliminarmente a final do Mundial de 50 do Brasil contra o Uruguai, onde Sciaffino fez o gol da vitória e o passe que levou à vitória uruguaia.
ALGUNS CASOS DE JOGADORES...
"Quando cheguei fui colocado num hotel 5 estrelas, mas terminei num quarto de pensão infestado de baratas." Foi assim que o hoje advogado Fábio Bombardi, 32 anos, definiu sua passagem de pouco mais de seis meses pelo futebol da China e do Casaquistão, no final dos anos 90. Fábio surgiu como um meia promissor na Ponte Preta, mas por uma série de razões não conseguiu se firmar. Iniciou então uma peregrinação. Rodou pelo São Bento de Sorocaba, Paulista de Jundiaí e, no final de 95, foi bater no Goiatuba-GO. Em 96, sem clube e recém-saído de uma cirurgia no joelho, encarou a aventura de jogar na China - o que foi, literalmente, uma aventura. (Foto Sérgio Carvalho/AE)
A trajetória do zagueiro André Leone no futebol italiano terminou de maneira constrangedora. No início de 2000, então com 20 anos, ele saiu do Campinas - clube do ex-atacante Careca - para o Vicenza, da 2ª divisão italiana. O sonho de fama e dinheiro na Europa, no entanto, se transformou numa grande humilhação. Em outubro daquele ano, ele e outro jogador brasileiro, o Jeda, foram denunciados por envolvimento com uma quadrilha que falsificava passaportes portugueses. O esquema, segundo apurou a polícia, garantia a entrada de estrangeiros no futebol europeu na condição de "comunitários". (Foto Hélvio Romero/AE)
O zagueiro Régis, 28 anos, não quer nem ouvir falar em futebol russo. Depois de um ano no Saturno, o jogador retornou ao Brasil no mês passado (está emprestado ao Cruzeiro) e, apesar de ter contrato até junho de 2006, assegura que não voltará mais para o clube. Régis, que começou no Inter de Porto Alegre e passou pelo Fluminense, diz que foi "desrespeitado" pelos dirigentes russos e que foi tratado com desconfiança.
(Foto Washington Alves/Light Press)
De onde os brasileiros saíram este ano
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Albania
1
Alemanha
22
Arábia Saudita
14
Argentina
12
Austrália
1
Austria
5
Azerbaijão
1
Bahrein
2
Belgica
2
Bolivia
17
Bulgária
1
Catar
6
Chile
4
China
9
Chipre
2
Colômbia
9
Coréia
16
Croácia
2
Dinamarca
1
El Salvador
5
Emirados Árabes
2
Equador
8
Escócia
2
Espanha
11
EUA
2
Finlândia
2
França
9
Grécia
11
Guatemala
2
Haiti
3
Holanda
2
Honduras
6
Hong Kong
1
Hungria
4
India
6
Indonésia
7
Inglaterra
2
Israel
6
Itália
12
Jamaica
1
Japão
24
Kuwait
7
Líbano
1
Macedônia
3
Malásia
5
Marrocos
2
México
18
Moçambique
1
Moldávia
1
Noruega
1
Oman
4
Paraguai
25
Peru
2
Polônia
4
Portugal
73
República Checa
3
Romênia
4
Rússia
11
Sérvia&Montenegro
1
Suíça
10
Trinidad&tobago
1
Tunísia
8
Turquia
10
Ucrânia
6
Uruguai
15
Venezuela
5
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Quantos jogadores saíram do Brasil:
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2001
736
2002
694
2003
852
2004
788 (até 30/09)
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Quantos voltaram para o Brasil:
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2001
180
2002
369
2003
373
* 2004
476 (Até 30/09)
|
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* Até 20/10 - número havia subido para 505.
Fonte: CBF